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Escalada militar dos EUA no Caribe reacende disputa por influência na América Latina e amplia tensão com Venezuela, Colômbia e Brasil
atualizado
As ofensivas norte-americanas na América Latina ganharam novo fôlego sob o segundo mandato de Donald Trump, mas seguem ancoradas em uma lógica histórica: a manutenção da hegemonia dos Estados Unidos sobre sua zona de influência.
No início de dezembro, Trump elevou o tom ao afirmar que nações envolvidas na produção ou venda de drogas para o mercado norte-americano poderão ser alvo de ataques militares. A declaração escalou as ameaças do republicano sob o argumento de combater o “narcoterrorismo”. “Qualquer um que fabrique isso [drogas] e venda para o nosso país está sujeito a ataques. Não apenas a Venezuela”, disse.
Corolário Roosevelt e Doutrina Monroe
- O Corolário Roosevelt, formulado em 1904 como extensão da Doutrina Monroe, transformou a política hemisférica dos Estados Unidos ao legitimar intervenções diretas na América Latina.
- Se a Doutrina Monroe, de 1823, buscava barrar a presença europeia no continente, o corolário deslocou o eixo para a ação norte-americana.
- Washington passou a se apresentar como “polícia internacional”, autorizando-se a intervir militarmente para garantir estabilidade.
Escalada militar no Caribe
A retórica de confronto acompanha um aumento expressivo da presença militar norte-americana. A missão no Caribe — conduzida sob a justificativa de reprimir cartéis — conta com cerca de 15 mil militares, além de aeronaves de combate e navios de guerra, incluindo o porta-aviões USS Gerald Ford, o maior do mundo.
As ações ocorreram paralelamente ao esforço político da Casa Branca para enquadrar o governo de Nicolás Maduro como patrocinador de narcoterrorismo, por supostamente abrigar o cartel de Los Soles, agora designado como organização terrorista internacional.
O republicano afirmou que a Operação Lança do Sul poderia avançar para ataques terrestres. “É muito mais fácil, e nós conhecemos os trajetos que eles percorrem. Sabemos onde eles moram”, disse.
Pressão sobre vizinhos e conflito com Petro
- A ofensiva norte-americana também mira a Colômbia. Na última semana, Trump acusou Gustavo Petro de “liderar o tráfico de drogas” e suspendeu subsídios a Bogotá.
- Em seguida, o secretário de Guerra, Pete Hegseth, anunciou o ataque a uma embarcação colombiana supostamente ligada ao ELN.
- À época, Petro chegou a afirmar que Trump estaria “planejando um golpe de Estado” contra seu governo.
- A reativação da retórica militar do governo Trump deve ser entendida em perspectiva histórica: a administração recuperou a lógica da “Guerra contra as Drogas” como instrumento de legitimação para novas formas de intervenção e pressão na América Latina.
- A narrativa reforçada pela Casa Branca atribui aos países latino-americanos a responsabilidade pelo avanço da drogadição nos Estados Unidos, criando um argumento moral para sustentar medidas mais duras na região.
Impactos sobre o Brasil
O governo Lula atua com cautela para não abrir novas frentes de atrito com Washington. A leitura é que Brasília tenta evitar novas retaliações econômicas adicionais, ao mesmo tempo, em que monitora o aumento da pressão militar dos EUA sobre a Venezuela.
“Embora Lula tenha denunciado a ameaça do uso da força na região, ele evita assumir uma posição mais contundente na defesa da soberania venezuelana”, avalia Matheus Marreiro, internacionalista e doutorando em estudos estratégicos pela Universidade Federal Fluminense (UFF). “O temor é que qualquer escalada nesse debate resulte em novas taxações que atinjam setores estratégicos da economia brasileira.”
Doutrina Monroe, mas na versão Trump
Movimentos recentes reforçam a leitura de que o republicano busca reabilitar uma versão atualizada da Doutrina Monroe. Documento divulgado pela Casa Branca afirma que os EUA devem impedir que “competidores extrarregionais” controlem ativos estratégicos no hemisfério ocidental.
O historiador Victor Missiato, do Mackenzie Tamboré, afirma que o discurso antidrogas mascara um objetivo maior: recompor o domínio estratégico dos EUA.
“O governo Trump mira restaurar o controle sobre a região, em um mundo dividido por zonas de influência — Rússia na Ucrânia, China em Taiwan, e os EUA buscando salvaguardar sua vizinhança, onde Pequim vinha ganhando espaço. A operação militar na Venezuela e o apoio seletivo à Argentina fazem parte desse redesenho.”
Missiato destaca que esse movimento ocorre simultaneamente a tensões globais em outros tabuleiros, tornando a América Latina um espaço de compensação geopolítica para Washington.
Crimes de guerra e tabuleiro em constante movimento
A ofensiva militar ganhou contornos ainda mais graves após revelação de que o Pentágono teria ordenado um segundo ataque contra uma embarcação já destruída, visando matar sobreviventes.
A legislação internacional proíbe ataques a náufragos, e a denúncia motivou investigação no Congresso. Parlamentares democratas classificaram as imagens como “uma das coisas mais preocupantes” já vistas, enquanto republicanos próximos a Trump defenderam que o ataque foi “legal e necessário”.
“No atual governo de Trump, o principal objetivo estratégico das políticas norte-americanas não difere dos governos anteriores: manter a hegemonia estadunidense globalmente, ou seja, preservar-se como o Estado mais poderoso em todos os aspectos”, ressalta Missiato.





