Quando gigantes tropeçam: o que a crise do GPA revela sobre a gestão financeira no Brasil

Por Caué Carvalho

Em um país que terminou 2025 com número recorde de empresas em
recuperação judicial, a crise de grandes companhias não é apenas um
episódio corporativo, é um alerta sobre como decisões financeiras moldam o
destino de empresas, famílias e instituições.
O Brasil entrou em 2026 com sinais claros de pressão financeira sobre o setor
produtivo. Ao final de 2025, 5.680 empresas estavam em recuperação judicial no
país, o maior número já registrado, segundo levantamento do Monitor RGF
divulgado pelo Valor Econômico. Ao mesmo tempo, o país também atingiu um
patamar histórico de 8,9 milhões de empresas inadimplentes, acumulando cerca
de R$ 213 bilhões em dívidas, de acordo com dados da Serasa Experian. Nesse
cenário de crescente fragilidade financeira, o recente processo de renegociação de
dívidas anunciado pelo Grupo Pão de Açúcar (GPA) deixa de ser apenas um caso
corporativo e passa a representar algo maior: um retrato das tensões que
atravessam a gestão financeira no Brasil, do pequeno empreendedor às
grandes corporações.
Casos como o do GPA chamam atenção porque envolvem empresas consolidadas,
com presença nacional e décadas de história. São organizações que, à primeira
vista, parecem imunes a crises estruturais.
Mas a história recente do mercado mostra que tamanho, tradição ou marca forte
não garantem estabilidade financeira.
Nos últimos anos, o Brasil assistiu a grandes empresas enfrentarem processos
complexos de reestruturação financeira. Cada caso possui suas particularidades,
estratégias de expansão, mudanças no ambiente econômico, estrutura de
governança ou decisões de investimento. Ainda assim, por trás de muitas dessas
crises aparece um elemento comum: a qualidade da gestão financeira e a cultura
de planejamento.
Crises financeiras raramente surgem de forma repentina.
Na maioria das vezes, elas são construídas lentamente, ao longo de decisões
aparentemente pequenas. Um nível de endividamento que cresce mais rápido do
que a capacidade de geração de receita. Investimentos realizados sem análise
adequada de risco. Falta de clareza sobre fluxo de caixa e compromissos futuros.
Enquanto o cenário econômico permanece favorável, esses sinais costumam passar
despercebidos. Mas quando o ambiente se torna mais desafiador, com juros
elevados, crédito mais restrito ou retração do consumo, empresas que já operavam
sob pressão financeira acabam expostas.
Esse fenômeno não se limita às grandes corporações que aparecem nas
manchetes. Ele é ainda mais visível na realidade das pequenas e médias empresas
brasileiras.
No cotidiano empresarial do país, um dos erros mais comuns continua sendo a
ausência de separação clara entre as finanças da empresa e as finanças pessoais
do empreendedor.
Não é raro encontrar negócios em que o caixa da empresa se mistura com o
orçamento familiar. Despesas pessoais são pagas com recursos do negócio, não há
definição clara de pró-labore e o controle financeiro acontece de forma informal.
No início, essa prática pode parecer inofensiva. Afinal, muitos empreendedores
enxergam a empresa como uma extensão natural da própria vida financeira.
Com o tempo, porém, essa mistura fragiliza a estrutura do negócio. Quando surgem
imprevistos, queda no faturamento, aumento de custos ou necessidade de crédito, a
empresa já não possui base financeira sólida para enfrentar o desafio.
Esse padrão ajuda a explicar por que tantos negócios enfrentam dificuldades ao
longo dos anos.
Curiosamente, desafios semelhantes podem ser observados também em outras
esferas da sociedade.
Na administração pública, por exemplo, gestores lidam diariamente com a
necessidade de equilibrar receitas e despesas, planejar investimentos e administrar
recursos de forma responsável. Embora os contextos sejam diferentes, a lógica
financeira é essencialmente a mesma.
Quando despesas deixam de respeitar a capacidade real de geração de
receita, a crise deixa de ser uma possibilidade e passa a ser apenas uma
questão de tempo.
Por isso, ao observar casos como o do GPA ou de outras empresas que
enfrentaram processos de recuperação judicial nos últimos anos, é importante olhar
além da manchete.
Esses episódios funcionam como um alerta sobre a importância da gestão
financeira estruturada, da governança e da cultura de planejamento.
No Brasil, ainda convivemos com uma relação culturalmente frágil com o dinheiro.
Muitas decisões financeiras são tomadas para resolver problemas imediatos,
enquanto o planejamento de longo prazo acaba sendo deixado para depois.
Esse comportamento aparece nas empresas, nas famílias e também nas
instituições.
Educação financeira, nesse contexto, não deve ser entendida apenas como um
conjunto de orientações sobre economia doméstica. Trata-se de desenvolver uma
forma mais consciente de tomar decisões financeiras e construir estruturas que
permitam enfrentar momentos de instabilidade econômica.
Na prática, ao decorrer da minha atuação como consultor financeiro, atendendo
clientes no Brasil, também em outros países e continentes, tenho observado que
muitas crises financeiras começam muito antes de se tornarem visíveis.
Elas começam nas decisões.
Na ausência de planejamento.
Na falta de organização.
Na mistura entre recursos que deveriam estar separados.
Esse é um dos temas que também abordo no livro O Poder das Conexões, do qual
sou coautor. Ao analisar histórias de trajetórias profissionais e empresariais,
torna-se evidente que decisões financeiras, boas ou ruins, influenciam diretamente
os resultados construídos ao longo do tempo.
Casos como o do GPA reforçam uma lição importante: o tamanho de uma
organização não a torna imune a erros de gestão financeira.
Empresas gigantes podem enfrentar crises bilionárias. Pequenas empresas podem
fechar silenciosamente. Famílias podem comprometer anos de trabalho por falta de
organização financeira.
A boa notícia é que o caminho oposto também é verdadeiro.
Quando existe planejamento, controle e clareza na gestão dos recursos, empresas
se tornam mais resilientes, famílias conquistam estabilidade e instituições
conseguem enfrentar melhor os desafios que surgem ao longo do tempo.
Em um cenário econômico cada vez mais complexo, talvez a pergunta mais
importante não seja por que algumas organizações entram em crise.
A pergunta mais relevante é outra…
Quais decisões financeiras estamos tomando hoje que determinarão a
estabilidade ou a fragilidade de amanhã?
Kauê Carvalho
Consultor financeiro, palestrante e escritor best-seller. Atua com educação
financeira, organização de finanças pessoais e empresariais e desenvolvimento de
estratégias financeiras para indivíduos e organizações. Atende clientes no Brasil e
em outros países e é coautor do livro O Poder das Conexões.
12.03.2026

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Gostou? Compartilhe nas Redes